Unidade do eterno e do novo
Há um paradoxo da unidade entre eterno e novo, já que eterno compreende algo que está fora do tempo e permanece idêntico a si mesmo sempre. Já o novo é algo totalmente dependente do tempo e só existe enquanto temporalidade. A essa união aparentemente impossível, dá-se o nome de arte. Segundo Merleau-Ponty, a arte é “... advento como promessa infinita de acontecimentos”. A obra de arte é a busca incessante pelo eternamente novo, uma nova maneira de apreciar o que já existe, como fez Monet ao pintar várias vezes a mesma catedral.
Alberto Caeiro, um dos pseudônimos de Fernando Pessoa afirma que o artista busca o espasmo que uma criança sentiria ao perceber que nasceu. O artista busca um mundo que nasce a todo instante, como teria sido no momento da criação, mas ao mesmo tempo busca o mundo em sua permanência.
A arte é uma forma de ver, sentir, ouvir, pensar e que a rigor não exibe nada que nos é desconhecido, mas o que fazemos parte a todo instante e não percebemos. Após transcrever um poema de Jorge Lima, o autor afirma que “o poeta transfigura a linguagem para fazê-la dizer algo, mas esse algo não existe antes, aquém, depois, além do poema, pois é o próprio poema”.
Um livro, por exemplo, transfigura em uma linguagem comum a ambos, leitor e escritor, uma explosão de sentidos que leva o leitor a ser “pego” pela estória. Da mesma forma, uma pintura ou escultura ou qualquer das artes é a transfiguração do existente numa outra realidade.
Os poetas distanciam as palavras da linguagem-instrumento, tratando as palavras como entes reais e não como meros signos ou sinais estabelecidos. Já o prosador quer que as palavras designem o mundo, mesmo que para isso seja preciso reconstruir o mundo todo através das palavras.
A obra de arte é, assim, o desvendamento do mundo através da recriação do mesmo. A música, por exemplo, seria destruída se tentássemos ouvi-la no seu âmbito físico, como vibração de um corpo. A sua harmonia, combinação de sons e ritmo cria um muno sonoro que é ela própria.
Arte e Técnica
A palavra arte, etimologicamente, está relacionada à toda espécie de atividade humana submetida a regras. Em sentido amplo, arte é um conjunto de regras para dirigir uma atividade humana qualquer. Apesar desse amplo sentido, ao longo do tempo houve separações, que começaram com Platão, em sua distinção entre dois tipos de artes ou técnicas: as judicativas, dedicadas apenas ao conhecimento; e as dispositivas, voltadas para uma atividade.
Aristóteles estabeleceu a distinção do necessário, ou que não pode ser diferente do que é; e o contingente, ou o que pode ser diferente do que é. Platino completa a distinção separando as artes que auxiliam a natureza (medicina, agricultura, etc.) daquelas cuja finalidade é fabricar um objeto com os materiais oferecidos pela natureza (artesanato). Ainda acrescenta uma técnica não relacionada à natureza, apenas ao próprio homem, como a retórica, a música, etc.
As sociedades antigas geraram uma classificação que seguia a estrutura social escravista: as artes liberais, ou aquelas que exigem apenas do intelecto; e aquelas relacionadas ao trabalho e, portanto, inferiores. Após o Renascimento houve uma valorização das artes mecânicas. Com o desenvolvimento do capitalismo, o trabalho passou a ser fonte e causa de riquezas. Daí surge a separação entre a arte como sendo o belo, e a técnica como sendo o útil.
A partir do século XX as artes tornam-se trabalho da expressão e mostram que são inseparáveis da ciência e da técnica. A pintura e a arquitetura do séc. XX seriam incompreensíveis sem a matemática, a teoria da harmonia, a física e a óptica. A novidade é que agora as artes não buscam ocultar esse fato, elas se referem aquelas explicitamente.
Três manifestações contemporâneas ilustram a comunicação entre arte e técnica: a fotografia; o cinema e o design. A fotografia e o cinema, a princípio surgem como reprodução da realidade, porém, como o tempo, passam a ser artes da expressão. O design introduz as artes na produção fabril, produzindo objetos técnicos. A diferença entre arte e objeto técnico é que o último tem como principal atributo a funcionalidade.
Este tema é bastante polêmico, visto que a maioria designers não se considera artista e nega cumplicidade com as artes. O designer deve ter disciplina, atender a requisitos de mercado, especificações técnicas e normativas, de segurança, usabilidade e ergonomia. Emprestando algumas palavras, “se além de tudo isso ele se considerar um artista, deve-se perguntar se não é um ser sobrenatural”.
Arte e Religião
Trabalho e religião foram as duas primeiras manifestações culturais. Sendo a religião uma forma de sociabilidade e autoridade. A relação humana com o sagrado, o divino em suas mais diversas manifestações, gerou uma ritualização de atividades e acontecimentos, como a colheita, a passagem do dia para a noite, entre outros.
As artes existem no interior dos cultos e para servi-los. Assim o artistarealizava um ofício sagrado, recebendo educação especial para isso e respeitando as regras e normas para a fabricação de objetos ou outras formas de representação.
A dimensão religiosa deu as obras de arte uma qualidade: a aura. A autenticidade, a unicidade da obra, o que dá a ela a transcendência. Mesmo após o distanciamento entre arte e religião, as obras não perderam sua aura. Devido a isso o artista ainda é visto como gênio criador, mentor de uma obra excepcional, mágico.
Arte e Filosofia
A princípio, as artes foram analisadas no contexto da poética pelos filósofos gregos Platão e Aristóteles. Essa óptica sugere o estudo das obras de arte como fabricação de seres e gestos artificiais, ou seja, produzidos por seres humanos.
Por volta de 1750 o termo estética foi usado pela primeira vez. Aos poucos passou a substituir a poética. A estética sugere que a finalidade de uma obra é a contemplação, a busca do belo, e que o belo é diferente do verdadeiro.
No início do século XX, porém, o critério de avaliação das obras de arte muda. As artes passam a ser vistas de outras perspectivas, tais como a expressividade, a interpretação e a crítica da realidade social e inovação em procedimentos criadores.
Relação entre Arte e Natureza
A primeira relação entre arte e natureza foi a de imitação. Por meio das várias formas de arte, o artista busca imitar outros seres com materiais e formas adequados.
Após o Romantismo, a filosofia passa a definir a obra de arte como criação. Em oposição à concepção anterior que buscava o valor do objeto imitado, agora o valor está na imaginação criadora, no artista.
Outra concepção contemporânea valoriza a expressão de um sentido novo, coloca o artista numa relação contínua com a natureza e com a sociedade, rejeitando a visão de gênio criador solitário e excepcional.
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