O conflito no Oriente Médio polarizou novamente a opinião internacional. De um lado, quase o mundo todo clama por um cessar-fogo, de outro, como era de se esperar, Estados Unidos e Israel tentam legitimar a ação militar catastrófica em Gaza. Seria trivial se o título do artigo fosse “Crise no Oriente Médio”, já que isso ocorre desde a ocupação judaica no território, hoje integrante do estado de Israel. Mas também não poderia ser chamado apenas de crise, já que há um conflito armado na Faixa de Gaza.
Para entender o que ocorre na região não basta apenas assistir telejornais e concluir “Terroristas são loucos” ou “Israel está abusando”, é preciso entender as origens históricas dessa crise que se alastra por décadas.
Por volta do século III d.C. os romanos expulsaram os judeus do que se convencionou chamar de Terra Santa. Em 1897, após um encontro sionista, os judeus decidiram voltar a ocupar a Palestina, que na época pertencia ao Império Otomano. Imediatamente, teve início a emigração judaica para o local onde viviam cerca de 500 mil árabes. Em 1903, estima-se que já somavam 25 mil judeus vivendo em meio à comunidade árabe. Em 1914, pouco antes da Primeira Guerra Mundial, eram 60 mil e em 1948, após a Segunda Guerra Mundial e pouco antes da criação do estado judaico, somavam 600 mil.
No decorrer dessa emigração, já ocorriam conflitos e, à medida que a ocupação aumentava, tornavam-se mais constantes e violentos. A Segunda Guerra Mundial contribuiu para esse quadro, já que milhares de judeus fugiram do regime nazista na Europa. Em 1947, a recém criada ONU sugeriu a criação de um “estado duplo”, um árabe e outro judeu, com Jerusalém como “enclave internacional”. Como era de se esperar, os árabes não aceitaram a proposta.
No dia 14 de maio de 1948, Israel declarou independência. Egito, Síria e Líbano se opuseram e atacaram, mas foram derrotados. Em 1967 Israel decidiu expandir o seu território, na chamada Guerra dos Seis Dias, derrotou Egito, Síria e Jordânia e conquistou de uma só vez a Cisjordânia, as Colinas de Golán e a parte leste de Jerusalém. Em 1973, Síria e Egito lançaram uma ofensiva contra Israel, no feriado conhecido como Yom Kippur (Dia do Perdão), mas foram novamente derrotados.
Em 1987, aconteceu a primeira Intifada (sacudida ou levante, em árabe), quando milhares de jovens foram às ruas protestar contra a invasão de Israel, que inclusive foi considerada ilegal pela ONU. Os israelenses atiraram e mataram crianças que jogavam pedras nos tanques, provocando comoção internacional. A segunda ocorreu em 2000, quando o então primeiro ministro israelense, Ariel Sharon, caminhou nas redondezas da mesquita de Al-Aqsa, considerada sagrada pelos muçulmanos, e parte do Monte do Templo, considerada sagrada por judeus e muçulmanos.
Atualmente, o conflito está longe de ser resolvido, pois Israel permanece nos territórios invadidos e se negam a sair, em desobediência à resolução 242 da ONU, que obriga o país a se retirar das áreas ocupadas durante a Guerra dos Seis Dias. Do outro lado, grupos radicais palestinos se negam a reconhecer Israel como estado e lançam uma série de atentados contra os judeus.
Em 2006, houve eleições legislativas na Autoridade Nacional Palestina (não existe um estado árabe propriamente dito) e o Hamas as venceram. Nessa ocasião votaram eleitores da Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém oriental. O problema foi que, apesar da democracia ter prevalecido, o Hamas não reconhece o estado judaico e, novamente, Israel e Estados Unidos lideraram uma pressão internacional para impor sanções e suspender a ajuda internacional ao povo palestino. A exigência era de que o Hamas aceitasse o estado de Israel e dividisse o poder com o Fatah, o que, obviamente, o grupo não aceitou.
Desde então houve uma troca mútua de acusações de quem atacou primeiro, situação semelhante àquele velho ditame do ovo e da galinha, que culminou na ofensiva militar de Israel no território palestino de Gaza.
O interessante é notar que, como dito anteriormente, a opinião internacional foi polarizada drasticamente. Há defensores fervorosos da ofensiva militar e outros que a denunciam como atrocidade. De fato tenho que admitir que a minha própria é claramente contra Israel-EUA, já que as ações militares estão causando inúmeras baixas civis, inclusive de crianças.
O fato é que em toda guerra dos “tempos modernos”, as maiores baixas são sempre de civis. Analisando a história da humanidade, é fácil notar que o campo de batalha foi deslocado para as áreas urbanas. Em épocas antigas e medievais os exércitos rivais marchavam e entravam em confronto, na maioria das vezes, em áreas remotas (mesmo porque elas eram bem mais comuns). Com o passar do tempo, cada vez mais, o confronto armado se aproximou das residências, e hoje faz parte da rotina de muitos povos.
O principal marco dessa transição, no meu entendimento, e uma das maiores atrocidades (senão a maior) de todos os tempos, foi o ataque com armas nucleares ao Japão durante a Segunda Guerra Mundial. O que poucas pessoas percebem é que não foi o fato de desenvolver uma bomba mais potente ou decidir usá-la em uma guerra que caracteriza o problema, o foco é que elas foram lançadas sobre cidades (Hiroshima e Nagasaki). As bombas caíram sobre a cabeça de civis: crianças, mulheres, idosos, jovens, todos no epicentro foram vaporizados e, aos que sobreviveram, restou conviver com o trauma, mutilações ou doenças oriundas da exposição à radiação.
Voltando à questão do Oriente Médio, e apoiando a ofensiva, há opiniões como a do professor, advogado e jurista da Universidade de Harvard, senhor Alan Morton Dershowitz. O senhor Dershowitz declara em uma tradução de seu artigo feita pelo jornal O Estado de São Paulo, que a ofensiva é legítima e que Israel deveria ser elogiado por seus atos de defesa contra o terrorismo internacional. Ele explicita o Artigo 51 da Carta da ONU, que declara o direito de defesa das nações, com a obediência aos princípios da proporcionalidade. Dershowitz garante que a ofensiva atende ao princípio de proporcionalidade.
Ele ressalta que “Disparar foguetes contra áreas densamente povoadas é a tática mais recente na guerra entre os terroristas que gostam da morte e as democracias que amam a vida. Os terroristas aprenderam a explorar a moralidade das democracias contra os que não querem matar civis, até mesmo civis inimigos” (grifos meus). Certamente que a “moralidade” não pertence às virtudes de uma nação que forjou documentos para acusar outra de desenvolver armas de destruição em massa e iniciar uma invasão sangrenta, que destruiu um país.
Também o “amor à vida” não parece estar presente durante os ataques aéreos que fizeram em pedaços centenas de civis em Gaza, incluindo crianças. Os bombardeios destruíram, inclusive, instalações da ONU, numa clara demonstração de que a pontaria do exército israelense está tão boa quanto à dos americanos durante as invasões do Afeganistão e Iraque. Some-se a isso o “método” de interrogatório adotado pelos EUA (tortura), que ferem um dos princípios básicos dos Direitos Humanos.

Fonte: O Estado de S. Paulo
Não há meios militares para resolver o impasse no Oriente Médio, a não ser que os dois povos sejam sumariamente exterminados do planeta (não estou sugerindo isso). A solução está na empatia e diplomacia, com cada lado reconhecendo os seus erros e adotando medidas para uma convivência sociável. O respeito à cultura, ao território e principalmente à vida é o que deve pautar as negociações de paz.
Mais informações sobre os crimes de guerra podem ser lidas no artigo em: Conflito em Gaza desperta polêmica sobre definição de 'civis'